Passa ou repassa. Passe-me a droga para que tudo passe. O pico, a pica, o fumo; passe-me tudo o que tenho direito, passe-me o direito de esquecer o que é direito ou esquerdo, passe-me as doenças e as loucuras, os vícios e as viçuras, passe-me a passagem para o que houver de menos passageiro. Porque a estabilidade passa-me distante mesmo quanto ao que sempre estraçalhava-me os medos.
Que me venham, pois, os espelhos, radiantes, que me mostrem os defeitos e o restante, que me mostrem as placas em minha pele, gritantes, que se inflamam, que me chamam dominantes do meu corpo: "Beba-me. Coma-me. Puna-me...".
Mas esperem, há uma outra placa refletida nos espelhos. Ela diz:
"Desafie-se.
Afie-se.
Desfie-se
de si."
E vejo rostos de chumbo apontando para as causas do meu fim - o pico, a pica, o fumo, todos ferventes pelo dissipar de qualquer outro reflexo, todos contentes pelo desmembrar de qualquer outra reflexão.
Vou ao chão, dopada, sem ao menos reconhecer o que agora os espelhos tentam me mostrar. É a lombra, é a eterna sombra que me cobre como um edredon esconde uma criança.
Me falta a esperança. Dissolvem-se as lembranças dos motivos e apenas os perigos me são servidos para degustar. Não há mais espelhos - há medos. Há segredos que não se deve desvendar. Mas não, não percam seu tempo, senhores, eu não preciso de mais acusações. Ajudar está longe de implicar julgamentos, e o tempo é algo que já não posso desperdiçar.
Estou em outro lugar agora. Ainda é inferno mas há o que não o seja. Minhas fraquezas estonteiam os muros e eu recordo do último dizer de placas refletido nos espelhos. Dessa vez, por partes:
"Desafie-se".
Deve ser disso que a vida se trata, afinal. Ao redor, o terror é eminente. Mas quando o resto do mundo desmorona em seus ombros, é a si que se deve desafiar, e somente.
"Afie-se".
Eis o segundo estágio para a sobrevivência. Não bastam os escudos e muralhas construídos para proteção; é preciso afiar-se, é preciso lembrar-se de que o ataque também pode ser a melhor defesa. Há de se atacar os males quando necessário, há de se cortá-los fora pela raiz, ou chegará o momento em que moinhos de vento derrubarão toda e qualquer fortaleza. É quando nos chega aquela terceira lição:
"Desfie-se de si".
Para sobreviver, por vezes, também é necessário diferenciar o que é inferno do outro lado dos muros, e o que somente toca a campainha na tentativa de lhe ajudar. É fácil achar que tudo intensiona o mal para que não se tenha o árduo trabalho de desvendar, para que se possa trancafiar-se sem peso e sem risco de ser surpreendido.
Mas é preciso desfiar-se de si para enxergar os outros. É preciso, até mesmo, arriscar-se quanto aos "se vale ou não a pena". Pois, desfiando-se de si, a visão desacostuma a olhar apenas para espelhos e passa a perceber que há pessoas que desfiam-se de si todos os dias por sua causa. E você vê, por fim, que a vida não tem que ser tão difícil assim.
Liniers (Macanudo): El humor de Macanudo - Liniers
43 minutos atrás