quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

A puta e o poema

"Poema sobre um poema

Diadorim versus vulgaridade
brandindo a pena da Possibilidade contra a espada do Dogma.
Minha tanga ameaçava a poeira
do teu templo mais careta.
'Vamos pedalar?' é a continuação de 'Ladrões de Bicicleta' ou só um filme pornô?
Eu te amo em 15 dialetos.
Estrelas rachadas vazam o leite dos deuses
que bebemos no gargalo.
A queijadinha mais preciosa na onda preferida de Iemanjá.
Rasgue as minhas cartas e me procure mais.
Juntos assistindo o nascimento do ânus solar,
a luta do escorpião com o próprio ferrão.
Você me trata assim porque eu fico sempre meio boca aberta da bicha
esperando a sua urina.
Motores lunares.
Emancipe-se: enfie um alfinete de fogo no Grande Olho que tudo vê,
pague um boquete, então
numa garrafa de Pitu.
Piruetas na melodia.
Teus olhos pescadores têm a debilidade de uma flor
pedindo vento.
Tambores vomitam a noite e sua gula da minha morte.
Alguém ficou mais ao norte de mim mesmo."

Eu não soube o que fazer. O papel de caderno arrancado fazia-me pulsar as partes sulistas do corpo. Ele me entregou o poema e sorriu, misturando o que havia de mais desengonçado e animalesco num ser. Seu jeito doce revelou-se tara fugaz, daquelas que me atraem nos chamados "certos tipos de homens errados".
Escrevera enquanto me olhava, pude notar pelo canto do olho. Assim como notara seu olhar contido às barras da minha saia e seu rosto levemente enrubrecido. Mas ah, mal sabia ele que conseguira enrubrecer o que me há de mais rubro.
Com o papel em mãos, observei o homem partir com seus passos firmes e decididos, como quem não esperava nada mais que aquela exata situação. Era apenas o dizer que ele tanto almejava. Era o fazer-me desvendar o seu segredo tão íntimo. E pronto. Não chegou a me pedir respostas ou a oferecer-me uma xícara de café - como se já soubesse que me cairia bem somente uma dose de vodka e um pagamento pelo serviço bem dado.
Falando em serviço, voltei ao meu o mais depressa possível, para saciar os desejos e usufruir da imaginação com qualquer que me fosse o cliente da vez.

Desejei a vulgaridade e as possibilidades em meu templo mais careta. Escolhi o filme pornô e pulei logo os "eu te amo" em 15 dialetos. Bebi no gargalo o leite dos deuses vazado pelo rachar de estrelas. Assisti o nascimento do ânus solar anunciando as pazes do escorpião com o próprio ferrão. Urinei pelo tremor dos motores lunares, pelo enfiar de alfinetes no Grande Olho que tudo vê. E, por fim, paguei um boquete numa garrafa de Pitu almejando apreciar ainda mais piruetas. No entanto, meus olhos débeis continuavam secos, quando ouvi os tambores vomitando a noite e sua gula da minha morte. Alguém ficou mais ao norte de mim mesma. Alguém que, como todos os outros, deveria ter se limitado somente ao meu sul.


domingo, 10 de janeiro de 2010

Baixa imunidade

Há doenças que vêm para o bem. Pode parecer loucura, mas o que diabos não seria, certo? Existir já me parece loucura suficiente e, por mais que me julguem por pegar infecções como quem pega resfriado, eu bem sei que há cuidados que se tornam inúteis perante as fraquezas. Não digo apenas no sentido literal, mas também no figurado. Certos males se impõem às pessoas não importando o quão cuidadosas elas possam ser. Na vida, para o bem ou para o mal, há o inevitável. E pobre dos carrascos distribuidores de culpa pela parte incontrolável dos seres humanos - parte essa que julgo ser 99% deles, mas essa é só mais uma crença pessoal de um animal consideravelmente estúpido.
O fato é que eu já não lido com minhas fraquezas como algo a ser dominado. O ser humano é fraco, assim como deve ser forte para aceitar suas limitações. Foi dessa forma que agüentei as perdas no decorrer das horas: perda da saúde; perda do juízo; perda do que parecia fazer sentido num mundo que só costuma mostrar o lado amargurado da própria face. Minhas doenças se tornaram cativantes ao modo em que, através delas, eu pude enxergar quem permaneceria constante ao meu lado, ainda que no leito de morte.
As perdas são instrumentos para os ganhos. Eles se utilizam delas para certificarem-se de que o melhor há de vir. Como duas serpentes que se alimentam uma da outra. Sua destruição é ao mesmo tempo o seu alimento. Aquela dor é o que lhe fará mais forte, ao contrário da dormência/demência de uma vida estavelmente feliz.
Por que digo isso? Bem, eu estive doente, como de costume. Os cigarros amigos se tornaram inúteis ao passo em que a fumaça já não penetrava em meus pulmões. As tosses, a falta de ar, e o medo da morte tornaram-se as minhas únicas companhias durante as noites. Mas ah, como é doce a sensação de ter comigo apenas aquilo que insiste em se fazer presente!
Pois bem, com a piora dos sintomas, recorri a médicos, tubos e comprimidos. Outros velhos amigos que fazem sempre questão de me ter por perto. Cuidados, cuidados, cuidado com o que se ter cuidado... É assim que arrasto os dias, felizes e radiantes, à espera do milagre de, em qualquer um desses, ser surpreendida por um ataque cardíaco, belo e fulminante.

Ora, me entendam bem, meus caros amigos... Há doenças que vêm para o bem.

domingo, 27 de dezembro de 2009

A puta e o tédio

- Que tédio da porra!
É, deixei escapar. Como diabos haveria de soltar tais palavras sendo uma puta, ainda não sei. Mas soltei. Aquele vai e volta, aqueles gritos em cada porta, as luzes, as línguas, tudo tendia a nada mais que o tédio. Eu poderia ter apenas pensado, como de costume, mas dessa vez as palavras realmente me escapuliram - sendo muito bem retribuídas com uma tapa na cara tão pesada que só não me vi ao chão por ter o peso daquele corpo a me fixar no centro da cama. De certo, clientes esperam de nós frases um tanto quanto mais adequadas... No entanto, isso não foi problema suficiente para fazê-lo parar. Ele continuou, se satisfez, e jogou o dinheiro sob os lençóis amarrotados, deixando o quarto logo em seguida após uns e outros xingamentos.
Eu não o julgo. Achei, inclusive, sua atitude deveras cavalheiresca tratando-se da ocasião.
De qualquer forma, apenas fumei um cigarro, tratei de lavar-me bem, e me pus de volta ao balcão principal do boteco aguardando o próximo da noite - ou mesmo o próximo 'para sempre' até que, por sua vez, este se faça passado.
Não sei o que há de errado comigo. Acho que ando desejando gente demais. Ando clamando por pecado embora, uma vez ele seja alcançado, apenas o tédio tome meu corpo como dele. E eu espero. Espero o dia em que os passados compreendam esta alma inescrupulosa. Espero as respostas para alcançá-los e dizer-lhes que ainda os quero, ainda que minha confusão seja inevitável a ponto de eu virar-lhes as costas.
Quem sabe um dia eu acorde e veja as lembranças ao lado da cama, e não somente em desejos debaixo do chuveiro? Quem sabe eu veja nas sombras a união dos corpos sem precisar lembrar da generosa compensação em dinheiro? Não que tal compensação seja por mim rejeitada, jamais! Não importa o amor que me tome, sempre aceitarei o dinheiro de outros, e de muito bom grado, garanto. Mas é esse algo a mais que me desfalece em tédio. Não há mistério, não há critério de sedução quando o corpo age por si só, mecanizado, apenas para atingir e causar orgasmos adicionais ao formoso currículo de uma puta. E penso: será essa a sensação de ser casada?
(...)
Bebo mais um gole, e aprumo a postura. Lá se vão as reflexões. Cá me vem o próximo gerador de tédio. E aí vamos nós, “depositador” e depósito de esperma, a mais uma aventura no quarto morto que ainda cheira ao suor dos últimos e cujas paredes ainda ecoam os seus gemidos. Ah, casados malditos!

Mas, ora, faça como as casadas, minha cara: pense na grana! Entendeu? Pense na grana...

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Passa ou Repassa

Passa ou repassa. Passe-me a droga para que tudo passe. O pico, a pica, o fumo; passe-me tudo o que tenho direito, passe-me o direito de esquecer o que é direito ou esquerdo, passe-me as doenças e as loucuras, os vícios e as viçuras, passe-me a passagem para o que houver de menos passageiro. Porque a estabilidade passa-me distante mesmo quanto ao que sempre estraçalhava-me os medos.

Que me venham, pois, os espelhos, radiantes, que me mostrem os defeitos e o restante, que me mostrem as placas em minha pele, gritantes, que se inflamam, que me chamam dominantes do meu corpo: "Beba-me. Coma-me. Puna-me...".
Mas esperem, há uma outra placa refletida nos espelhos. Ela diz:

"Desafie-se.
Afie-se.
Desfie-se
de si."

E vejo rostos de chumbo apontando para as causas do meu fim - o pico, a pica, o fumo, todos ferventes pelo dissipar de qualquer outro reflexo, todos contentes pelo desmembrar de qualquer outra reflexão.

Vou ao chão, dopada, sem ao menos reconhecer o que agora os espelhos tentam me mostrar. É a lombra, é a eterna sombra que me cobre como um edredon esconde uma criança.

Me falta a esperança. Dissolvem-se as lembranças dos motivos e apenas os perigos me são servidos para degustar. Não há mais espelhos - há medos. Há segredos que não se deve desvendar. Mas não, não percam seu tempo, senhores, eu não preciso de mais acusações. Ajudar está longe de implicar julgamentos, e o tempo é algo que já não posso desperdiçar.

Estou em outro lugar agora. Ainda é inferno mas há o que não o seja. Minhas fraquezas estonteiam os muros e eu recordo do último dizer de placas refletido nos espelhos. Dessa vez, por partes:

"Desafie-se".

Deve ser disso que a vida se trata, afinal. Ao redor, o terror é eminente. Mas quando o resto do mundo desmorona em seus ombros, é a si que se deve desafiar, e somente.

"Afie-se".

Eis o segundo estágio para a sobrevivência. Não bastam os escudos e muralhas construídos para proteção; é preciso afiar-se, é preciso lembrar-se de que o ataque também pode ser a melhor defesa. Há de se atacar os males quando necessário, há de se cortá-los fora pela raiz, ou chegará o momento em que moinhos de vento derrubarão toda e qualquer fortaleza. É quando nos chega aquela terceira lição:

"Desfie-se de si".

Para sobreviver, por vezes, também é necessário diferenciar o que é inferno do outro lado dos muros, e o que somente toca a campainha na tentativa de lhe ajudar. É fácil achar que tudo intensiona o mal para que não se tenha o árduo trabalho de desvendar, para que se possa trancafiar-se sem peso e sem risco de ser surpreendido.

Mas é preciso desfiar-se de si para enxergar os outros. É preciso, até mesmo, arriscar-se quanto aos "se vale ou não a pena". Pois, desfiando-se de si, a visão desacostuma a olhar apenas para espelhos e passa a perceber que há pessoas que desfiam-se de si todos os dias por sua causa. E você vê, por fim, que a vida não tem que ser tão difícil assim.

domingo, 1 de novembro de 2009

Who's back

Eu voltei. Voltei melhor do que nunca, voltei por ter recuperada a certeza do que fazer da vida depois de tanto tempo. Sim, eu havia esquecido a razão pela qual eu programava o despertador para tocar, mesmo quando sabia que não haveria de dormir de forma alguma. Eu relembrei. Recuperei o sono através da perda dele por um objetivo final: o de ser a melhor na profissão que escolhi seguir. Eu sou puta, eu amo o que faço, e foda-se o descaso de quem me acha pouco digna. Hoje, mais do que nunca, eu renego o termo sina para pôr dom em seu lugar. Não é fácil saber o que se quer da vida. E, quando se perde o foco, recuperá-lo torna-se arte digna dos Reis mais audaciosos.

Eu sou rainha. Retornei às linhas que no passado me traziam a fome de levantar todos os dias. E foram estas linhas que me puseram novamente diante da paixão pela vida apesar da vida. Lembrei do meu primeiro dia de trabalho. Do medo, da ânsia, da ansiedade. Lembrei de como eu tentava controlar os temores, os tremores no corpo e na fala, e de como eu tentava estampar na cara o falso título de experiente. Lembrei dos olhares famintos dos clientes, que desejavam e hesitavam diante da minha impecável pose de sabe-tudo.
Ah, não vou negar, foi mesmo duro me manter aparentando segurança mas, logo no primeiro dia, ela já deixara de ser só aparente. Eu estava segura. Eu sabia que chegara até ali pelo dinheiro, mas quase que de imediato entendi que eu era mesmo boa no que fazia, ainda que pela primeira vez. Eu os vi querendo mais. Eu os vi trazendo mais clientes, sedentos pelo que eu tão bem sabia oferecer. Na primeira semana, já carregava flores e presentes dos mais variados. Eu era amada naquela porra de cabaré como nem as veteranas chegaram a ser um dia. Os clientes faziam fila, pediam mais, eram atenciosos e até obedientes. Sempre voltavam para mostrar à puta a fidelidade negada em suas respectivas casas. E eu? Eu os amava.

Não à toa tomei gosto pelo ofício. As outras putas, desgostosas, faziam o trabalho na marra. Davam a cara para bater, davam o corpo sem prazer, sem gozo, sem morrer de êxtase no final do expediente pela completa satisfação do cliente. Ora, faça-me um favor. Não tem amor que pague o que se ganha com o merecido reconhecimento do que se faz. E eu o tinha. Eu sempre o tive. Mas com uma ou outra recaída, o desespero corroeu toda e qualquer certeza que eu ainda possuía sobre a minha vida.
Comecei duvidando de Deus; depois de alguns, de outros, de todos e, por último, de mim mesma. Aos poucos, a confiança foi sendo resgatada em um ou outro, mas a primordial ainda é a direcionada a mim. E antes que se questione - não, nem Deus nem certos "alguns" irão jamais recuperar qualquer crença ou confiança da minha parte. Eu estou satisfeita depositando-as a quem eu julgo bem merecer.
E é por isso que hoje anuncio a qualquer um que se interessar em saber: eu voltei. Voltei melhor do que nunca. Voltei por ter recuperada a certeza do que fazer da vida. E, agora, sequer é necessário programar qualquer despertador para que eu me ponha de pé no exato horário de começar a exercer o delicioso dom de ser uma puta. Portanto, faço minhas as palavras do Rei sobre o perfeccionismo para seu retorno ao ramo: "It's all for love. L-O-V-E".
And this is it.

domingo, 18 de outubro de 2009

O Fim

O fim sempre chega. Não importa a sua esperteza, não importam seus medos ou vontades, ele sempre dá um jeito de se chegar. Malandro, astucioso, desgostoso pelo tédio de ser o único que não pode ter fim, o fim sai acabando com tudo o que existe, seja alegre ou triste, seja bom ou ruim.

Não, não há escapatória. O fim é maldoso. É a sentença certa de todos. É a carência de tudo o que cansa de simplesmente existir. "É o fim" - e está dito. É acabado o que tantos juravam para o eterno ter surgido. É cessado o que quer que antes se fazia presente.
E ai dos clementes ainda misericordiosos pelo interminável, porque o fim é puro escárnio de sorrisos iludidos. É um puto vigário que roga pela prova de que a esperança nem sempre é a última a quem ele há de se apresentar.
Sim, o fim sempre chega. No entanto, não há certeza quanto ao seu alojamento reinante, não é sempre que ele é esperto o bastante para acertar em cheio o seu alvo, com destreza. E é por essa razão que nada paga o sabor de sentar e sorrir, aliviada pela graça que o fim faz quando a trapaça é a ele direcionada, da mesma maneira.
Não importa, de fato, se o fim tem pressa ou preguiça de fazer visita aos nossos prezados. Sendo ele inevitável, apenas dancemos na cela. Apenas nademos na merda da vida brincando de não haver feridas, e fingindo que é cega a saudade do que se foi e do que ainda há de partir.
Pois o fim, uma vez enganado, senta lado a lado com a tristeza. E, por fim, ficam os dois assim, abalados, dividindo os fardos na mesa, bebendo incertezas no gargalo - o fim tendo a tristeza, e a tristeza tendo fim.

sábado, 17 de outubro de 2009

Victória Covarde

Ele chegou. E em sua testa estava escrito o nome "culpado". Eu dei dois passos para trás, me esquivei, como se em minha testa estivesse escrito "condenada". Deitei então sobre o sofá, quase que de imediato, e liguei a TV procurando um canal qualquer que me servisse de disfarce. Ele estava sério, diferente da forma irritante como costumava me abordar com seus sorrisinhos irônicos e toda aquela efusividade.

- Estamos só nós dois na casa. - disse ele, em tom de deboxe.
- Jura? Eu sequer havia notado. - e continuei assistindo à TV ignorando o fato por ele relatado.
- Se eu fosse você, eu temeria... Ah, não, esqueci que é disso que você gosta, não é? É isso que você quer, é isso que você faz, porque você precisa de uma boa pica para se sentir bem diariamente. Bela puta, é isso o que você é.
- Estou surpreza. Sério, não acredito que você levou tão pouco tempo para me desvendar dessa forma. Parabéns, realmente impressionante. Mas você se equivocou em um detalhe... Não é de uma boa pica que eu preciso, são de várias.
Aumentei o som da TV ao máximo e me levantei do sofá em direção à cozinha, sabendo bem que, como um bom verme, ele logo viria atrás de mim. Peguei um copo, enchi de água até que transbordasse, e me pus a dar longos goles, deixando as gotas derramarem sobre a minha camisa branca.
- Merda, ó! Me molhei.
- Que coisa... Logo nesses peitos. Você deveria tomar mais cuidado, menina. - E sorriu.
Enquanto eu virava de costas para pôr o copo em cima da pia, ele repousou suas mãos sobre os meus ombros, massageando lenta e bruscamente. Aproximou, então, a boca do meu ouvido e sussurrou:
- Sabe por que você não tem ninguém para fazer isso em você? Porque você não merece. Você não merece nada, e sabe disso. É só uma putinha como outra qualquer, que só serve para ser jogada no lixo, como um bixo, como o pedaço de merda que você é.
Eu continuei silenciosa, deixando que ele sussurrasse e cheirasse o meu pescoço a seu bel prazer.
- Nossa, essa foi a coisa mais romântica que eu já ouvi em toda a minha vida. - respondi-lhe, por fim, quando senti suas mãos descerem dos meus ombros para percorrerem todo o resto. Ainda de costas, abri as pernas lentamente. Ele desceu, como eu bem esperava, e foi com uma faca que virei e acertei-lhe os ovos em cheio.
- Sabe por que você não tem mais isso aqui? - Eu sussurrei afundando a faca, enquanto ele lacrimejava seus olhos arregalados e tentava reproduzir algo mais que grunhidos. - Porque você não merece. Você não merece nada, e sabe disso. É só uma putinha como outra qualquer, que só serve para ser jogada no lixo, como um bixo, como o pedaço de merda que você é. - E puxei a faca para cima, retirando-a e deixando-o desmantelar no chão bem como um grande e ambulante pedaço de merda, de fato.
- Ora, vamos, porque silenciou agora? Não consegue mais soltar gracinhas? Vamos, diga como eu sou uma puta, diga! Diga agora como eu sou uma vadiazinha que você adora comer! Ah... o que foi? Não consegue? Bom, convenhamos que de nada serve uma língua se não se pode usar, certo?
Abri a dispensa e lá estavam as tão charmosas algemas conseguidas também graças a muito charme e disposição. Precavida, o algemei ao cano da pia, mesmo sabendo que ele não teria forças para causar muito incômodo. Sentei sobre ele, e tirei a camisa ainda úmida.
- Uhh, consegue ficar de pau duro agora, consegue? Nossa! O que diabos aconteceu aqui?! Você está sangrando horrores, meu bem! Menstruou? Ou provocou um aborto? Ah, pode ter sido espontâneo também, é verdade... Eu ouvi falar que stress demais pode causar essas coisas desagradáveis. Você anda estressado, querido? Tem algo lhe afligindo ultimamente? Hein? Tsc, tsc... É, definitivamente, você não está com uma cara boa. Tá pálido, aflito... Precisa relaxar mais, rapaz, ou pode acabar morrendo qualquer hora dessas...
Peguei minha maleta de brinquedinhos e pus ao lado esquerdo do seu rosto para que ele pudesse enxergar bem o que estava por vir.
- Mas que falta de modos, meu bem! Por que você não responde às minhas perguntas? Sua família não lhe deu educação o suficiente? Ah, é, você não liga para educação. Ela não é nada material, certo? Seu negócio é grana, carro do ano, celulares e todo o tipo de luxo restante. Engraçado, você não me parece muito luxuoso agora com essa cara encharcada de suor e essas calças encharcadas de sangue... Mas me diga, por que tanto silêncio? Não está sendo bom pra você, hein?! Oi? Desculpe, meu bem, não entendo nada do que você está tentando falar. Como eu pensei... Acho que a sua língua agora não tem lá muita serventia. Mas não se preocupe, ela não há de fazer muita falta. Você sequer sabe chupar uma mulher direito...
Não tenho porque mentir, deu um trabalho da porra arrancar aquela língua sebosa dele. Mas, com esse trabalho feito, eu percebi que, na verdade, a um homem sem pau e sem língua, não resta serventia alguma.
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Casa limpa e arrumada, TV no volume usual, voltei a deitar sobre o sofá que tanto me reconforta depois da exaustão e do êxtase de tarefa cumprida. Liguei para aquele tão novo amigo do falecido, em quem ele tanto confiava.
- Tudo como o planejado, baby. Mais tarde você já pode passar aqui para recolher as coisinhas e para comemorarmos juntos mais uma vitória covarde. Ah, a propósito, adorei as algemas...