"Poema sobre um poema
Diadorim versus vulgaridade
brandindo a pena da Possibilidade contra a espada do Dogma.
Minha tanga ameaçava a poeira
do teu templo mais careta.
'Vamos pedalar?' é a continuação de 'Ladrões de Bicicleta' ou só um filme pornô?
Eu te amo em 15 dialetos.
Estrelas rachadas vazam o leite dos deuses
que bebemos no gargalo.
A queijadinha mais preciosa na onda preferida de Iemanjá.
Rasgue as minhas cartas e me procure mais.
Juntos assistindo o nascimento do ânus solar,
a luta do escorpião com o próprio ferrão.
Você me trata assim porque eu fico sempre meio boca aberta da bicha
esperando a sua urina.
Motores lunares.
Emancipe-se: enfie um alfinete de fogo no Grande Olho que tudo vê,
pague um boquete, então
numa garrafa de Pitu.
Piruetas na melodia.
Teus olhos pescadores têm a debilidade de uma flor
pedindo vento.
Tambores vomitam a noite e sua gula da minha morte.
Alguém ficou mais ao norte de mim mesmo."
Eu não soube o que fazer. O papel de caderno arrancado fazia-me pulsar as partes sulistas do corpo. Ele me entregou o poema e sorriu, misturando o que havia de mais desengonçado e animalesco num ser. Seu jeito doce revelou-se tara fugaz, daquelas que me atraem nos chamados "certos tipos de homens errados".
Escrevera enquanto me olhava, pude notar pelo canto do olho. Assim como notara seu olhar contido às barras da minha saia e seu rosto levemente enrubrecido. Mas ah, mal sabia ele que conseguira enrubrecer o que me há de mais rubro.
Com o papel em mãos, observei o homem partir com seus passos firmes e decididos, como quem não esperava nada mais que aquela exata situação. Era apenas o dizer que ele tanto almejava. Era o fazer-me desvendar o seu segredo tão íntimo. E pronto. Não chegou a me pedir respostas ou a oferecer-me uma xícara de café - como se já soubesse que me cairia bem somente uma dose de vodka e um pagamento pelo serviço bem dado.
Falando em serviço, voltei ao meu o mais depressa possível, para saciar os desejos e usufruir da imaginação com qualquer que me fosse o cliente da vez.
Desejei a vulgaridade e as possibilidades em meu templo mais careta. Escolhi o filme pornô e pulei logo os "eu te amo" em 15 dialetos. Bebi no gargalo o leite dos deuses vazado pelo rachar de estrelas. Assisti o nascimento do ânus solar anunciando as pazes do escorpião com o próprio ferrão. Urinei pelo tremor dos motores lunares, pelo enfiar de alfinetes no Grande Olho que tudo vê. E, por fim, paguei um boquete numa garrafa de Pitu almejando apreciar ainda mais piruetas. No entanto, meus olhos débeis continuavam secos, quando ouvi os tambores vomitando a noite e sua gula da minha morte. Alguém ficou mais ao norte de mim mesma. Alguém que, como todos os outros, deveria ter se limitado somente ao meu sul.
Liniers (Macanudo): El humor de Macanudo - Liniers
1 hora atrás
