quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Passa ou Repassa

Passa ou repassa. Passe-me a droga para que tudo passe. O pico, a pica, o fumo; passe-me tudo o que tenho direito, passe-me o direito de esquecer o que é direito ou esquerdo, passe-me as doenças e as loucuras, os vícios e as viçuras, passe-me a passagem para o que houver de menos passageiro. Porque a estabilidade passa-me distante mesmo quanto ao que sempre estraçalhava-me os medos.

Que me venham, pois, os espelhos, radiantes, que me mostrem os defeitos e o restante, que me mostrem as placas em minha pele, gritantes, que se inflamam, que me chamam dominantes do meu corpo: "Beba-me. Coma-me. Puna-me...".
Mas esperem, há uma outra placa refletida nos espelhos. Ela diz:

"Desafie-se.
Afie-se.
Desfie-se
de si."

E vejo rostos de chumbo apontando para as causas do meu fim - o pico, a pica, o fumo, todos ferventes pelo dissipar de qualquer outro reflexo, todos contentes pelo desmembrar de qualquer outra reflexão.

Vou ao chão, dopada, sem ao menos reconhecer o que agora os espelhos tentam me mostrar. É a lombra, é a eterna sombra que me cobre como um edredon esconde uma criança.

Me falta a esperança. Dissolvem-se as lembranças dos motivos e apenas os perigos me são servidos para degustar. Não há mais espelhos - há medos. Há segredos que não se deve desvendar. Mas não, não percam seu tempo, senhores, eu não preciso de mais acusações. Ajudar está longe de implicar julgamentos, e o tempo é algo que já não posso desperdiçar.

Estou em outro lugar agora. Ainda é inferno mas há o que não o seja. Minhas fraquezas estonteiam os muros e eu recordo do último dizer de placas refletido nos espelhos. Dessa vez, por partes:

"Desafie-se".

Deve ser disso que a vida se trata, afinal. Ao redor, o terror é eminente. Mas quando o resto do mundo desmorona em seus ombros, é a si que se deve desafiar, e somente.

"Afie-se".

Eis o segundo estágio para a sobrevivência. Não bastam os escudos e muralhas construídos para proteção; é preciso afiar-se, é preciso lembrar-se de que o ataque também pode ser a melhor defesa. Há de se atacar os males quando necessário, há de se cortá-los fora pela raiz, ou chegará o momento em que moinhos de vento derrubarão toda e qualquer fortaleza. É quando nos chega aquela terceira lição:

"Desfie-se de si".

Para sobreviver, por vezes, também é necessário diferenciar o que é inferno do outro lado dos muros, e o que somente toca a campainha na tentativa de lhe ajudar. É fácil achar que tudo intensiona o mal para que não se tenha o árduo trabalho de desvendar, para que se possa trancafiar-se sem peso e sem risco de ser surpreendido.

Mas é preciso desfiar-se de si para enxergar os outros. É preciso, até mesmo, arriscar-se quanto aos "se vale ou não a pena". Pois, desfiando-se de si, a visão desacostuma a olhar apenas para espelhos e passa a perceber que há pessoas que desfiam-se de si todos os dias por sua causa. E você vê, por fim, que a vida não tem que ser tão difícil assim.

domingo, 1 de novembro de 2009

Who's back

Eu voltei. Voltei melhor do que nunca, voltei por ter recuperada a certeza do que fazer da vida depois de tanto tempo. Sim, eu havia esquecido a razão pela qual eu programava o despertador para tocar, mesmo quando sabia que não haveria de dormir de forma alguma. Eu relembrei. Recuperei o sono através da perda dele por um objetivo final: o de ser a melhor na profissão que escolhi seguir. Eu sou puta, eu amo o que faço, e foda-se o descaso de quem me acha pouco digna. Hoje, mais do que nunca, eu renego o termo sina para pôr dom em seu lugar. Não é fácil saber o que se quer da vida. E, quando se perde o foco, recuperá-lo torna-se arte digna dos Reis mais audaciosos.

Eu sou rainha. Retornei às linhas que no passado me traziam a fome de levantar todos os dias. E foram estas linhas que me puseram novamente diante da paixão pela vida apesar da vida. Lembrei do meu primeiro dia de trabalho. Do medo, da ânsia, da ansiedade. Lembrei de como eu tentava controlar os temores, os tremores no corpo e na fala, e de como eu tentava estampar na cara o falso título de experiente. Lembrei dos olhares famintos dos clientes, que desejavam e hesitavam diante da minha impecável pose de sabe-tudo.
Ah, não vou negar, foi mesmo duro me manter aparentando segurança mas, logo no primeiro dia, ela já deixara de ser só aparente. Eu estava segura. Eu sabia que chegara até ali pelo dinheiro, mas quase que de imediato entendi que eu era mesmo boa no que fazia, ainda que pela primeira vez. Eu os vi querendo mais. Eu os vi trazendo mais clientes, sedentos pelo que eu tão bem sabia oferecer. Na primeira semana, já carregava flores e presentes dos mais variados. Eu era amada naquela porra de cabaré como nem as veteranas chegaram a ser um dia. Os clientes faziam fila, pediam mais, eram atenciosos e até obedientes. Sempre voltavam para mostrar à puta a fidelidade negada em suas respectivas casas. E eu? Eu os amava.

Não à toa tomei gosto pelo ofício. As outras putas, desgostosas, faziam o trabalho na marra. Davam a cara para bater, davam o corpo sem prazer, sem gozo, sem morrer de êxtase no final do expediente pela completa satisfação do cliente. Ora, faça-me um favor. Não tem amor que pague o que se ganha com o merecido reconhecimento do que se faz. E eu o tinha. Eu sempre o tive. Mas com uma ou outra recaída, o desespero corroeu toda e qualquer certeza que eu ainda possuía sobre a minha vida.
Comecei duvidando de Deus; depois de alguns, de outros, de todos e, por último, de mim mesma. Aos poucos, a confiança foi sendo resgatada em um ou outro, mas a primordial ainda é a direcionada a mim. E antes que se questione - não, nem Deus nem certos "alguns" irão jamais recuperar qualquer crença ou confiança da minha parte. Eu estou satisfeita depositando-as a quem eu julgo bem merecer.
E é por isso que hoje anuncio a qualquer um que se interessar em saber: eu voltei. Voltei melhor do que nunca. Voltei por ter recuperada a certeza do que fazer da vida. E, agora, sequer é necessário programar qualquer despertador para que eu me ponha de pé no exato horário de começar a exercer o delicioso dom de ser uma puta. Portanto, faço minhas as palavras do Rei sobre o perfeccionismo para seu retorno ao ramo: "It's all for love. L-O-V-E".
And this is it.

domingo, 18 de outubro de 2009

O Fim

O fim sempre chega. Não importa a sua esperteza, não importam seus medos ou vontades, ele sempre dá um jeito de se chegar. Malandro, astucioso, desgostoso pelo tédio de ser o único que não pode ter fim, o fim sai acabando com tudo o que existe, seja alegre ou triste, seja bom ou ruim.

Não, não há escapatória. O fim é maldoso. É a sentença certa de todos. É a carência de tudo o que cansa de simplesmente existir. "É o fim" - e está dito. É acabado o que tantos juravam para o eterno ter surgido. É cessado o que quer que antes se fazia presente.
E ai dos clementes ainda misericordiosos pelo interminável, porque o fim é puro escárnio de sorrisos iludidos. É um puto vigário que roga pela prova de que a esperança nem sempre é a última a quem ele há de se apresentar.
Sim, o fim sempre chega. No entanto, não há certeza quanto ao seu alojamento reinante, não é sempre que ele é esperto o bastante para acertar em cheio o seu alvo, com destreza. E é por essa razão que nada paga o sabor de sentar e sorrir, aliviada pela graça que o fim faz quando a trapaça é a ele direcionada, da mesma maneira.
Não importa, de fato, se o fim tem pressa ou preguiça de fazer visita aos nossos prezados. Sendo ele inevitável, apenas dancemos na cela. Apenas nademos na merda da vida brincando de não haver feridas, e fingindo que é cega a saudade do que se foi e do que ainda há de partir.
Pois o fim, uma vez enganado, senta lado a lado com a tristeza. E, por fim, ficam os dois assim, abalados, dividindo os fardos na mesa, bebendo incertezas no gargalo - o fim tendo a tristeza, e a tristeza tendo fim.

sábado, 17 de outubro de 2009

Victória Covarde

Ele chegou. E em sua testa estava escrito o nome "culpado". Eu dei dois passos para trás, me esquivei, como se em minha testa estivesse escrito "condenada". Deitei então sobre o sofá, quase que de imediato, e liguei a TV procurando um canal qualquer que me servisse de disfarce. Ele estava sério, diferente da forma irritante como costumava me abordar com seus sorrisinhos irônicos e toda aquela efusividade.

- Estamos só nós dois na casa. - disse ele, em tom de deboxe.
- Jura? Eu sequer havia notado. - e continuei assistindo à TV ignorando o fato por ele relatado.
- Se eu fosse você, eu temeria... Ah, não, esqueci que é disso que você gosta, não é? É isso que você quer, é isso que você faz, porque você precisa de uma boa pica para se sentir bem diariamente. Bela puta, é isso o que você é.
- Estou surpreza. Sério, não acredito que você levou tão pouco tempo para me desvendar dessa forma. Parabéns, realmente impressionante. Mas você se equivocou em um detalhe... Não é de uma boa pica que eu preciso, são de várias.
Aumentei o som da TV ao máximo e me levantei do sofá em direção à cozinha, sabendo bem que, como um bom verme, ele logo viria atrás de mim. Peguei um copo, enchi de água até que transbordasse, e me pus a dar longos goles, deixando as gotas derramarem sobre a minha camisa branca.
- Merda, ó! Me molhei.
- Que coisa... Logo nesses peitos. Você deveria tomar mais cuidado, menina. - E sorriu.
Enquanto eu virava de costas para pôr o copo em cima da pia, ele repousou suas mãos sobre os meus ombros, massageando lenta e bruscamente. Aproximou, então, a boca do meu ouvido e sussurrou:
- Sabe por que você não tem ninguém para fazer isso em você? Porque você não merece. Você não merece nada, e sabe disso. É só uma putinha como outra qualquer, que só serve para ser jogada no lixo, como um bixo, como o pedaço de merda que você é.
Eu continuei silenciosa, deixando que ele sussurrasse e cheirasse o meu pescoço a seu bel prazer.
- Nossa, essa foi a coisa mais romântica que eu já ouvi em toda a minha vida. - respondi-lhe, por fim, quando senti suas mãos descerem dos meus ombros para percorrerem todo o resto. Ainda de costas, abri as pernas lentamente. Ele desceu, como eu bem esperava, e foi com uma faca que virei e acertei-lhe os ovos em cheio.
- Sabe por que você não tem mais isso aqui? - Eu sussurrei afundando a faca, enquanto ele lacrimejava seus olhos arregalados e tentava reproduzir algo mais que grunhidos. - Porque você não merece. Você não merece nada, e sabe disso. É só uma putinha como outra qualquer, que só serve para ser jogada no lixo, como um bixo, como o pedaço de merda que você é. - E puxei a faca para cima, retirando-a e deixando-o desmantelar no chão bem como um grande e ambulante pedaço de merda, de fato.
- Ora, vamos, porque silenciou agora? Não consegue mais soltar gracinhas? Vamos, diga como eu sou uma puta, diga! Diga agora como eu sou uma vadiazinha que você adora comer! Ah... o que foi? Não consegue? Bom, convenhamos que de nada serve uma língua se não se pode usar, certo?
Abri a dispensa e lá estavam as tão charmosas algemas conseguidas também graças a muito charme e disposição. Precavida, o algemei ao cano da pia, mesmo sabendo que ele não teria forças para causar muito incômodo. Sentei sobre ele, e tirei a camisa ainda úmida.
- Uhh, consegue ficar de pau duro agora, consegue? Nossa! O que diabos aconteceu aqui?! Você está sangrando horrores, meu bem! Menstruou? Ou provocou um aborto? Ah, pode ter sido espontâneo também, é verdade... Eu ouvi falar que stress demais pode causar essas coisas desagradáveis. Você anda estressado, querido? Tem algo lhe afligindo ultimamente? Hein? Tsc, tsc... É, definitivamente, você não está com uma cara boa. Tá pálido, aflito... Precisa relaxar mais, rapaz, ou pode acabar morrendo qualquer hora dessas...
Peguei minha maleta de brinquedinhos e pus ao lado esquerdo do seu rosto para que ele pudesse enxergar bem o que estava por vir.
- Mas que falta de modos, meu bem! Por que você não responde às minhas perguntas? Sua família não lhe deu educação o suficiente? Ah, é, você não liga para educação. Ela não é nada material, certo? Seu negócio é grana, carro do ano, celulares e todo o tipo de luxo restante. Engraçado, você não me parece muito luxuoso agora com essa cara encharcada de suor e essas calças encharcadas de sangue... Mas me diga, por que tanto silêncio? Não está sendo bom pra você, hein?! Oi? Desculpe, meu bem, não entendo nada do que você está tentando falar. Como eu pensei... Acho que a sua língua agora não tem lá muita serventia. Mas não se preocupe, ela não há de fazer muita falta. Você sequer sabe chupar uma mulher direito...
Não tenho porque mentir, deu um trabalho da porra arrancar aquela língua sebosa dele. Mas, com esse trabalho feito, eu percebi que, na verdade, a um homem sem pau e sem língua, não resta serventia alguma.
--
Casa limpa e arrumada, TV no volume usual, voltei a deitar sobre o sofá que tanto me reconforta depois da exaustão e do êxtase de tarefa cumprida. Liguei para aquele tão novo amigo do falecido, em quem ele tanto confiava.
- Tudo como o planejado, baby. Mais tarde você já pode passar aqui para recolher as coisinhas e para comemorarmos juntos mais uma vitória covarde. Ah, a propósito, adorei as algemas...

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Sutilezas, apenas.

Eu não nasci puta. Nasci para ser puta, é diferente. E é nessa aparente sutileza que freqüentemente sou condenada pelos demais. Mesmo já puta, me deixei perder algumas vezes na ilusão de que também outra coisa me caberia. Amei. Nunca da forma estupidamente cega que a maioria, na verdade, mas amei de fato. Acreditei poder ser vista como digna de respeito mesmo já tendo sido (e sendo) de tantos homens e mulheres nesse mundo.

Sim, também já fui de uma só pessoa, por considerável tempo para uma puta. Alguns poucos meses, talvez. Não mais que isso, mas fui. Não por exigências dele também, não há paixão que me faça permitir ser exigida, seja qual for a forma. Fui porque quis, por me sentir "completa" (ou seja lá como se pode definir isso) com uma única pica. Mas, obviamente, não podia durar muito.
O fato é que cheguei a enfrentar santos e demônios, meus e de outros, tudo pelo pouco de esperança que aceitei resguardar ao menos daquela vez. "Ele não te respeita. Você é uma vadia, não merece respeito. Logo logo ele se dará conta disso e te deixará por uma mulher que seja verdadeiramente digna". "Que seja", pensei. Há tempos não me dou ao luxo de perder tempo pensando no amanhã, e, com ele, eu queria mais do que ser vista como puta, mesmo que esse "mais" fosse menos do que o socialmente aceito como relacionamento sério.
Ele comia quem quisesse, eu podia dar para quem quisesse, e nós nos queríamos. Eu o queria. Até que em um belo dia foi confirmado o resultado da minha gravidez, e o fato de que, se Deus existir, é um cagão que vive doido para dar a bundinha mas não pode, daí resolve botar no cu dos outros, por puro despeito.
"Filha da puta, eu avisei que ia dar em merda essa história com esse cara! E agora, me diz?! Como caralho tu vai sustentar essa criança? Como porra tu vai poder rodar a bolsa com esse buxo, criatura?!". "Tirando". Naquele momento, que se fodesse o amor. Pelo pouco que o conheço, ele não costuma durar tanto quanto um filho. E, como eu já sabia bem o procedimento (graças à situação da minha mais antiga amiga, de puteiro e de vida), o segui com destreza.
Sangue, e mais sangue, e mais sangue. Tudo escorria, caía, despedaçava-se no chão pelas minhas pernas e ali, por alguma razão, com ambas as mãos eu tentei conter, segurar, quase pôr de volta, como se tal conduta fosse aceitável para uma puta. Até que, enfraquecida, me permiti apenas tremer e deixar aquele resto de vida escapar, por saber o quão medonha já era a arte de arrastar a vida que me sobraria.
Por fim, aquela vida escapou, eu escapei com vida, e cerca de algumas semanas depois também o amor me havia escapado. Acho que essa foi uma das poucas vezes em que um filho, felizmente, durou menos que o amor. E eu suspirei aliviada por tê-lo presenteado com a morte antes que ele viesse, caso contrário, a sentir as conseqüências.
Logo em seguida, prossegui com os dias como se nem o amor nem o filho houvessem se perdido, ou sequer existido. Voltei ao trabalho, árduo e prazeroso, de cabarés e esquinas, de perigos e sinas, aceitos como predestinação. Como eu disse, eu não nasci puta. Nasci para ser puta, é diferente. E é a vida que faz sempre questão de me lembrar dessa aparente sutileza.

sábado, 10 de outubro de 2009

Tic-tec's.

Todos dormem na casa, e há somente um quarto com a luz acesa - o seu.

Deite, dessa vez você vai conseguir dormir. Você está exausta, está na sua própria casa, não há com o que se preocupar. Deite. Deixe a luz acesa como sempre, ninguém precisa saber do seu medo de escuro. E agora cubra-se com o lençol amarrotado, acredite na segurança ilusória que esse simples ato lhe proporciona.
Silêncio. Olhos escancarados. Percorra com eles as paredes, as quinas, o teto, os rostos das tomadas. O sono vem. O sono vem. Olhos fechados. Há mãos em você. Elas não são suas.
Mantenha os olhos fechados, só há você no quarto! Só há você no quarto. Vire para o outro lado.
Um rosto.
Olhos escancarados. Shhh... Controle-se. Acalme-se. Segure a perna esquerda que ainda treme. Calma, essas mãos são suas dessa vez. Feche os olhos. Vire. Vamos, para o outro lado agora.
- TEC!
Shhh... é apenas o guarda-roupa soluçando a sua angústia. Silêncio. Vamos, você consegue. Controle a respiração. Conte até três, até dez, mas não conte a sua história. Não conte. Não há o que temer. Isso... Não há ninguém na cama ao lado. Isso... Ignore o barulho dos carros. Shhh...
- TEC!
Olhos escancarados. Taquicardia. Não tem mais ninguém aqui! Não tem mais ninguém aqui! Vamos, durma, imbecil! É só a sua mente idiota lhe pregando peças! Durma! Feche os olhos... Assim... Pense no dia, vamos, pense no dia. Pense em mediocridades do dia-a-dia. Pense na saudade de um beijo, num abraço de criança, expulse qualquer outra lembrança que lhe reviva o medo da morte capotante em seu peito. Respire. Você consegue, vamos... Você consegue...
Vira. Mexe. Não, nessa posição, não! Calma, não precisa abrir os olhos, só se encolha na cama. Vire novamente. Uma sombra. Não, não é ele! Não é ele! Durma! Porra, durma! Frio. Suor. Vira. Mexe. Não contraia o rosto, só relaxe...
Motos urram pela janela.
Gargalhadas, de homens.
Gritos, de mulher.
Mas shhh... Calma, calma... Não abra os olhos ainda. O grito não é seu. O grito não é seu... Gargalhadas. Música. Garrafas quebradas. Pronto, passou. Viu só? Eles foram embora. Ele foi embora... Você já pode dormir sossegada.
Isso... Mantenha os olhos fechados, vire de lado. Contorça-se.
Ele está aqui.
Não, não! Foi só impressão. Você está segura. Você está inteira. Não há sangue ou sujeira em seu corpo, não se preocupe. Você está limpa. Entendeu? Você não está suja. Você não está suja. Você não é suja... Pronto... Agora sim, durma. Durma antes que amanheça. Não trema. Não tema agora adentrar no mundo dos sonhos quando foi no da realidade o seu maior pavor.
Olhos fechados. TECs. Taquicardia. Motos. Gargalhadas. Gritos. Garrafas quebradas. Mãos. Rosto. Mãos. Rostos. Puxa, empurra, torce, mete, contorce, empurra, frio, mãos. Peso, mãos. Dor, mãos. Shhh... Viu? Só um quarto vazio.
Agora se encolha que eu já estou sem paciência. Não trema! Não trema! Está tudo bem agora. Está tudo bem. Vai ficar tudo bem. Você vai ficar bem. Um dia, você vai...
Feche os olhos, e não chore. Já vai amanhecer e você ainda não dormiu nada! Vamos, feche os olhos. Respire... Calma, não há mais ninguém no quarto.
Calma, não há mais ninguém no quarto...
Merda, não há mais ninguém no quarto.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Freebirds

Eu rasguei a garganta dele. Depois de rasgar vísceras e bolas, sentei sobre seu corpo estendido no chão, segurei-lhe os cabelos para que a cabeça ficasse bem erguida (de modo que ele pudesse olhar-me nos olhos ainda que de costas), enfiei a faca mais cega do nosso estoque em sua amígdala esquerda e lentamente me pus a puxar para a direita, cerrando a carne do pescoço com força e exatidão. Os olhos já eram a única parte que conseguia movimentos ágeis daquele corpo, e fiz questão de estar bastante atenta ao cessar também dessa agilidade. Levantei de suas costas e ali deixei que o corpo se afogasse em seu próprio sangue.

Charles estava em pé na porta da cozinha, com um cigarro na boca, e observando a minha euforia. Já tínhamos acabado com a namoradinha do sujeito também, de forma doce e poética - ou, ao menos, para nós. Gargalhei desviando minhas botas do sangue no chão, e o abracei ao vê-lo com aquele sorriso de canto de boca e com seu olhar de profunda ternura que só ele sabe fazer ao ver terminado o trabalho com destreza. Ele me abraçou de volta, beijou-me a testa e continuou direcionado aos corpos no chão da cozinha, admirando-os. Eu me virei para acompanhá-lo na magia da cena: copos e cadeiras quebrados, as sete facas de tamanhos e formatos diferentes, o alicate, a tesoura, o bisturi... Sem falar no belo pedaço de ferro ainda quente pela brasa, formando lindas imagens de fumaça que se dissipavam no ar como as minhas tantas más lembranças.
Nada de armas de fogo naquele dia, era uma ocasião e tanto. Usamos apenas para a abordagem e para o caso de algo acabar saindo dos conformes. E os corpos. Ah, os corpos... Quanta harmonia e paz de espírito. Quanta alegria de se estar vivo, ali, um com o outro, enquanto os outros não estavam. Charles então apertou-me o ombro direito e, com seu belo sorriso, me olhou enquanto eu ajeitava seus cabelos caídos nos olhos.
- A cup of tea, dear? - Eu sorri.
- Adoraria, baby. - E ele foi lavar uma panela para pôr a água pra ferver.

- Foi lindo. - eu disse, enquanto sentava em uma das duas cadeiras que salvamos intactas para aquele momento.
Acendi um cigarro e pus os pés em cima da mesa. Ele então acendeu o fogão, e, sorrindo, veio diretamente a mim apenas para me assanhar os cabelos.
- É sempre lindo. Mas hoje nós dois vamos dormir mais tranqüilos do que nunca. E amanhã, com certeza, nós dois acordaremos mais leves do que nunca. O mundo agora está lindo, baby. Até que encontremos a próxima feiúra para matar, entende? E você, você foi uma graciosa bailarina dançando no belo palco que essa cozinha hoje se tornou. Sim, definitivamente, foi lindo.
- Eu te amo.
- Eu também te amo. Você sabe disso. E agora, vamos tomar nosso chá para comemorar as nossas vidas!
Ele buscou as duas xícaras mais sofisticadas da casa do agora póstumo casal-perfeição, e nos serviu como um rei e sua rainha. Éramos os donos do mundo ali, e aquele era o nosso reino, belo e perfeito, como um era para o outro, e como para sempre seríamos. Éramos a harmonia dentro do caótico inerente à qualquer existência nessa merda de vida. E quem sabe seja essa a razão para nos apegarmos à morte como solução para tudo o que é asqueroso.
O sangue, os gritos, o implorar desesperado por sobrevivência... Nada disso nos afeta. Pelo contrário, apenas nos serve como estímulo para cessar todas as sobrevidas escoriadas que habitam a Terra.
E não importam os homens que passam pela minha cama e corpo, é ele o grande amor da minha vida. Nós somos livres, como dois pássaros virados na porra para fazer algazarra em ar ou em terra, e, ao mesmo tempo, como duas serpentes que se conhecem a ponto de permitirem-se entrelaçar apenas uma à outra - porque o verdadeiro perigo consiste no veneno de tudo aquilo que nos cerca.
Somos pássaros livres, e somos negras serpentes, sedentas por sangue, porém encantadas com o compartilhar da mesma ânsia uma na outra. Por isso entrelaçamo-nos, sem que preces sejam necessárias para que uma não acabe por matar a outra em instinto.
Doença? Destino? Não se sabe dizer. Apenas nos permitimos nos perder de vez em quando/sempre que nos vem o desejo da perdição. É isso que nos une. É isso que basta para que, para nós, seja a nossa união a mais bem sucedida de todos os tempos.
E que se foda a cura da nossa loucura, porque temos um ao outro, e ainda temos o mundo todo para mostrar o tamanho da nossa fúria.